segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Resenha Literária: De corpo Inteiro, Clarice Lispector





Como um livro pode se tornar seu favorito sem ao menos você terminar a leitura? Como uma escritora consegue ser magnifica até quando se trata de entrevistas?



Para quem não sabe de quem estou falando. Estou falando da Clarice Lispector, no seu livro de entrevistas "De corpo Inteiro", de 210 páginas, e editado pela editora Rocco. E ademais, com o desenho na capa de uma máquina de escrever, e dentro desta máquina saí música, romance, café, flores, lua, nuvens, garrafas. Como uma explosão de mundos das palavras.

Clarice neste livro deixa de ser escritora, e passa a ser entrevistadora. E que entrevistadora! Com perguntas tão inteligentes, sagazes, que deixa muito jornalista no pé.

Neste livro Clarice entrevista várias pessoas que são envolvidas diretamente e indiretamente pelos hábitos culturais, artísticos, etc. Entre eles podem se destacar: Oscar Niemeyer, Iberê Camargo, Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Jorge Amado, entre outros.

O lado poético de Clarice Lispector ia florescendo ao fazer as perguntas. Parecia que a cada questão que fazia mais o seu lado poético desabrochava.
Perguntas como "O que é o amor?" e outras como "Qual a coisa mais importante no mundo?" eram como uma necessidade que gritava dentro si, e por consequência passa para os entrevistados na ânsia de entender a si própria.  

Uma entrevista que quero muito dá enfase é a do Hélio Pelegrino. Que é uma das mais belas entrevistas que eu vi no livro, que está pulsando em mim até agora. Quero que todos leiam essa maravilhosa  entrevista, leia, releia, treleia.

Alguns trechos da entrevista ao Hélio Pelegrino.

Clarice pergunta:


 "Você queria ter outras vidas? Era o meu sonho ter várias. Numa eu seria só mãe, em outra vida eu só escreveria, em outra eu só amava."

E no que Hélio respondeu:

"Sou um homem de muitos amores - isso é, de muitos interesses- e para tão longos amores, tão curta é a vida. Não há ninguém que consiga, no tempo de uma vida, esgotar todas as possibilidades.

Se me forem dadas outras e outras vidas, gostaria de ser:

a) filósofo profissional; b) romancista; c) marido de Clarice Lispector, a quem me dedicaria com veludosa e insone dedicação; d) chofer de caminhão; e) morador em Resende, apaixonado por uma moça triste, debruçada à janela de uma casa, saída de um quadro de Volpi; f) seresteiro, poeta, cantor, com a música de Chico Buarque."


Por este trecho da para perceber que Clarice sabe o que faz, e como faz. Não está para brincadeira quando se trata de falar da vida, do humano, do amor, do mundo em si.

Clarice é uma mulher que precisa ser lida quantas vezes for necessário, e chegar a várias conclusões ou a várias reflexões sobre o que é a vida.


Comprei este livro em um sebo, e não sabia da existência do mesmo. Pensei que fosse apenas algumas perguntas simples como qualquer entrevistador faz, mas Clarice, não gosta do que está na superfície, no que está às claras; Clarice gosta do que está subtendido, nas profundezas e foi assim que mergulhei neste "Corpo Inteiro", e saí de lá com uma vontade danada de ser, de apenas ser, e mais nada.

Aconselho todos a lerem este livro maravilhoso, tenho certeza que não irão se arrepender!

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