segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Poesia em Foco: Manoel de Barros

Manoel de Barros foi um grande poeta, desconstruiu a forma de fazer poesia, e inventou a sua forma. Uma forma ingênua pra as coisas, mas ao mesmo tempo tão sábia. Mistura as insignificâncias da vida com pássaros, com amor, com alegria, com tristeza, com o nada.

Não se deixou levar pelas grandezas do mundo, sempre foi mais perspicaz para as miudezas, para as coisas pequenas, as que ninguém observa. Que olhar aguçado tinha esse poeta, abriu os olhos de quem tem olhos e não vê.

Não posso deixar passar desapercebido os poemas, essas joias ocultas, essas joias que estão escondida dentro das palavras, das entrelinhas. E preciso imensamente dar-lhe as joias para alguém que quer ver a vida de uma forma bárbara, então não esqueça o meu presente em um canto qualquer. Desfrute dele, e use-o quantas vezes forem necessárias.



                                                                             
                                                       Gorjeio

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.





        Por viver muitos anos dentro do mato
        moda ave
        O menino pegou um olhar de pássaro-
        Contraiu visão fontana
        Por forma que ele enxergava as coisas
        por igual
        como os pássaros enxergam.
        As coisas todas inominadas.
        Água não era ainda a palavra água.
        Pedra não era ainda a palavra pedra
        E tal.
        As palavras eram livres de gramáticas e
        podiam ficar em qualquer posição.
        Por forma que  o menino podia inaugurar.
        Podia dar às pedras costumes de flor.
        Podia dar ao canto formato de sol.
        E, se quisesse caber em uma abelha, era
        só abrir a palavra abelha e entrar dentro
        dela.
         Como se fosse infância da língua.

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